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É dia de festa na roça. Fogueira posicionada, caipiras arrumados, barraquinhas com quitutes suculentos e bandeirinhas de todas as cores enfeitando o salão. Mas o ponto mais esperado de toda a festa é sempre a quadrilha, embalada por música típica e linguajar próprio. Anarriê, alavantú, balancê de damas e tantos outros termos agitados pelo puxador da quadrilha deixam a festa de São João, comemorada em todo o Brasil quinta passada (23), ainda mais completa. Mas será que o ‘matutês’ é tão caipira assim?

Embora os festejos juninos sejam uma herança da colonização portuguesa no Brasil, grande parte das tradições da quadrilha tem origem francesa. E muita gente dança sem saber. “O povo brasileiro passou a conviver com essa realidade e a imitar de maneira irônica a dança que, até então, eles não tinham acesso. O resultado nós conhecemos e se se espalhou pelo Brasil em um tom satírico”, explica o presidente da Comissão Espíritossantense de Folclore, Eliomar Carlos Mazoco.

As influências estrangeiras são muitas nas festas dos três santos do mês de junho (Santo Antônio no dia 13 e São Pedro no dia 29 completam o grupo). O ‘changê de damas’ nada mais é do que a troca de damas na dança, do francês ‘changer’. O ‘alavantú’, quando os casais se aproximam e se cumprimentam, também é francês, e vem de ‘en avant tous’. Assim também acontece com o balancê, que também vem de bailar em francês.

Origens

“Hoje é uma dança super popular, mas que já foi dançada na corte francesa. É bem provável que houve mesmo a adição do espírito brasileiro e fez esse caipirês que é ótimo”, lembra a diretora da Aliança Francesa no Espírito Santo, Darcília Moysés.

Alguns outros termos não são tão usados, mas também estão presentes em algumas quadrilhas. Esse é o caso do ‘cumprimento vis-à-vis’ (compliment vis-à vis) – um casal de frente para o outro – e o ‘otrefoá’ (autre fois), quando a ordem é repetir o passo feito pelos pares.

Para Darcília Moysés, tem muito mais Europa nas quadrilhas do que se imagina. “Eles são caipiras, mas não perdem as origens e cada vez mais se esmeram na dança e no linguajar da festa. Assim como os termos franceses usados, ninguém quer ser caipira feio na quadrilha”, afirma.

Jeitinho brasileiro

Mas, se a festa junina é um dos eventos mais tradicionais e esperados no calendário verde e amarelo, os brasileiros são os grandes responsáveis pelo tempero na comemoração de São João. ‘Olha a cobra’, ‘Caminho da roça’, ‘Caracol’. Esses sim fazem parte do imaginário matutês.

“A parte brasileira na quadrilha, diferente da dança francesa, é pura encenação teatral em volta de um casamento na roça. A mocinha filha de fazendeiro quer se casar, mas o noivo só casa na mira de uma espingarda. E a quadrilha é a festa para esse casamento”, explica Eliomar Mazoco.

Seja em francês, em português ou em matutês, o importante é a confraternização, como lembra o presidente da Comissão Espíritossantense de Folclore. “As pessoas passam cerca de um mês se preparando, procurando roupas, vendo quem vai fazer o quê de comida. Isso tudo é feito em conjunto. A festa em si, na verdade, passa voando”.

Glossário da quadrilha

Todo mundo já dançou quadrilha um dia. Mas muitos não sabem que vários termos usados vêm do francês:

Alavantú (en avant tous)- todos os casais vão para a frente
Anarriê (en arrière) – casais vão para trás
Changê (changer/changez) – trocar/troquem o par
Cumprimento ‘vis-à-vis’ – cumprimento frente a frente
Otrefoá (autre fois) – repete o passo anterior

Mas a parte mais animada da quadrilha é brasileira e representa casais chegando a uma festa de casamento:

Caminho da festa – os pares seguem atrás dos noivos, iniciando a dança
O túnel – os noivos elevam os braços para cima e, de mãos dadas, fazem o túnel onde todos passam
Olha a chuva – os casais dão meia-volta para que ninguém acabe molhado
Olha a cobra – as damas gritam e pulam no colo dos cavalheiros
Caracol – de mãos dadas, todos fazem um percurso em espiral
A grande roda – todos dão as mãos formando um círculo
Coroa de rosas – os cavalheiros, de mãos dadas, erguem os braços sobre a cabeça das damas, como se as coroassem
Baile geral – os pares dançam no centro da roda.O grande baile está acabando
Despedida – todos se retiram do centro do salão, atrás dos noivos

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