Tags

,

Vi o filme há uma semana mais ou menos, e desde então venho procurando o que escrever sobre ele aqui, mas não consegui expressar em palavras tudo o que é o filme. Ainda bem que a Alessandra conseguiu fazê-lo tão bem nesse post, que segue reproduzido abaixo. A quem interessar ver uma bela obra de arte, não perca tempo e assista o mais rápido possível.

“Para entender a arte é preciso ter o tempo e o prazer da contemplação necessários, assim como saber apreciar a pulsação do artista. Não basta olhar para uma tela tendo hora marcada em outro local. Ou escutar uma música fazendo 10 outras atividades ao mesmo tempo.Séraphine, filme francês que foi um dos destaques de 2009, não é apenas uma produção sobre uma artista do início do século passado. Ele próprio, o filme, é uma peça de arte ao explorar nos detalhes a vida de sua personagem principal. O filme dedica o tempo necessário e abriga qualidades como a contemplação e a narrativa que busca a pulsação do artista ao qual a produção é dedicada. Uma bela peça de cinema que, além da arte, trata do contexto europeu que antecedeu e sucedeu a 1ª Guerra Mundial. Além disso, Séraphine trata sobre religiosidade, fé e compreensões divergentes sobre o belo e a loucura.

A HISTÓRIA: Na cidade francesa de Senlis, em 1914, Séraphine Louis (Yolande Moreau) caminha pelas águas de um rio nas primeiras horas do dia. Quando escuta os sinos da igreja, ela caminha depressa para chegar a tempo da missa. Séraphine canta com convicção e de forma afinada as canções religiosas e, no final, ergue seu olhar para o alto. Depois, utiliza a mesma dedicação para esfregar com vigor o chão de uma das casas onde trabalha na limpeza. Sua empregadora, madame Duphot (Geneviève Mnich), pede que Séraphine deixe tudo limpo e arejado porque terá um novo inquilino: o alemão Wilhelm Uhde (Ulrich Tukur). Crítico de arte, ele descobre acidentalmente o talento de Séraphine, uma mulher considerada louca em seu vilarejo mas que, com o tempo, seria considerada uma das expoentes francesas do grupo de artistas que ficou conhecido como os “primitivos modernos”.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Séraphine): A vida desta artista impressiona tanto ou mais que a sua arte. O diretor e roteirista Martin Provost decidiu destacar, de forma muito natural, contemplativa e, por tudo isso, sem pressa alguma, detalhes da vida adulta de Séraphine. Como em tantas outras histórias, quando o espectador é inserido em uma realidade quando ela está próxima a mudar, no filme Séraphine acompanhamos o que ocorre com a sua protagonista justo no momento em que entra em sua vida o crítico de arte Wilhelm Uhde. A relação dos dois, artista e crítico, com as pessoas “comuns” ao seu redor é mais um ponto de interesse do filme.

Séraphine vai agradar, certamente, às pessoas que gostam de arte, de saber sobre seu processo criativo e a biografia de seus artistas. O filme de Provost explora ainda, neste universo artístico, as relações que cercam ao indivíduo que assina as obras e os bastidores que fazem com que alguém um dia chegue a ser conhecido e/ou reconhecido. Mas o interessante é que Séraphine deve extrapolar esse grupo restrito e interessar também aos que tem curiosidade para saber como era a vida de pessoas comuns antes da eclosão da 1ª Guerra Mundial. Que ambiente, afinal, fazia parte da Europa naqueles dias? Séraphine mostra o que ocorre antes, durante e depois do conflito que envolveu tantos países. Sem contar que o filme roça a fronteira entre a genialidade e a loucura e a dificuldade da sociedade em aceitar as pessoas que fogem de seus padrões.

Não são poucos os temas abordados pelo filme, como comentei no parágrafo anterior. E, ainda assim, Séraphine não amontoa os assuntos ou faz cortes rápidos entre eles em momento algum. Pelo contrário. O roteiro de Martin Provost e Marc Abdelnour deveria servir de exemplo para os que tentam defender filmes em que as histórias se acumulam ou ficam rasteiras demais com a desculpa de que “há muitos assuntos para abordar”. Séraphine aborda tudo o que comentei antes com calma, migrando de um assunto para outro de forma natural, suave, valorizando cada minuto da narrativa.

Essa valorização do tempo é fundamental também para que a atriz principal, Yolande Moreau, dê um show de interpretação. Não é por acaso que ela recebeu tantos prêmios por seu trabalho neste filme. Yolande convence como se fosse a própria artista, criada sob os signos/valores da fé e do trabalho duro como os únicos caminhos dignos de uma pessoa. Diferente de outras intérpretes, que facilmente cairiam na intepretação de uma mulher “louca” de forma exagerada, Yolande assume o papel de Séraphine como o de uma mulher frágil e ao mesmo tempo batalhadora,  manipulável e que sucumbe com certa facilidade a uma idéia grandiloquente de salvação/fama.

Não sei, honestamente, até que ponto esta cinebiografia respeita a história real de Séraphine Louis. Ainda assim, o que o espectador vê na tela é impressionante. Comove a forma com que Séraphine levava a vida, totalmente devota às maravilhas da Natureza e aos presentes que o “Criador havia lhe dado”, assim como a sua simplicidade – ela insistia em continuar trabalhando duro mesmo quando suas obras haviam sido descobertas por Uhde – e sua insistência em dizer que o mérito de seu trabalho era divino. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Por mais que ela tenha perdido a lucidez perto do final, contaminada pelas promessas de exposições e reconhecimento por seu trabalho – desprezado por tantas pessoas -, Séraphine jamais se vangloriou de suas pinceladas. Sentia-se orgulhosa de ser um “canal criativo” de Deus – talvez por isso ela se sentisse tão confortável junto de árvores e da Natureza. Para ela, todos eram canais da força divina.

Independente de crenças ou credos, Séraphine é um exemplo de como o talento frutifica em locais improváveis. Uhde fica espantado em saber que sua descoberta era uma criadora independente, totalmente autodidata e, mais, inclusive ridicularizada em seu ambiente. Ampliando o olhar para aquela realidade, Séraphine era uma pária social de muitas formas. Por não ter família constituída, ela não tinha um sobrenome ou “brasão” para se comparar às pessoas “respeitáveis” da sociedade local.

Sua arte era vista como algo ridículo pelos que se consideravam “esclarecidos”, e seu gosto pela simplicidade, pela natureza e um ou outro gesto seu diferente dos padrões daquela pequena comunidade era encarado como algo típico de uma louca ou, na melhor das hipóteses, de uma pessoa extravagante. Achei especialmente incrível a forma com que Séraphine sobreviveu ao período da guerra. E contrariando todas as previsões, ela seguiu pintando, se aprimorando e, meio que por acidente, passou a criar telas de grandes dimensões. Sua vontade de sobreviver foi determinante para que, em 1927, com o retorno de Wilhelm Uhde para a França – mas não para a cidade de Senlis -, Seráphine tivesse uma nova oportunidade de mostrar o seu talento para o mundo.

A história desta artista é fantástica por si só. Mas a forma com que ela é narrada pelos roteiristas e por uma direção inspiradíssima transformam este filme em um dos melhores do gênero. Meio óbvio comentar isso, mas ganha um destaque todo especial a direção de fotografia de Laurent Brunet. Não apenas as paisagens e a arquitetura local são detacadas pelas lentes de Brunet e Provost. A direção de fotografia acaba sendo fundamental para valorizar os momentos intimistas da produção, que revelam o processo criativo de Séraphine e a sua devoção. Um lindo trabalho, belo e poético ao mesmo tempo.

Paralela à história da artista plástica que ganhava a vida como faxineira, o espectador conhece um pouco melhor como ocorria a descoberta de um novo talento na Europa no início do século 20. Pessoas como Wilhelm Uhde orquestravam o surgimento de novas tendências ao mesmo tempo em que faziam pequenas fortunas. Como ele comenta para o jornalista Francis Gouyet (Jean-Pascal Abribat) quando chega a Chantilly após a guerra, muitas vezes suas investidas não conseguiam a repercussão e o apoio necessário. Claro que Uhde e outros marchandt da época tinham que tirar dinheiro do próprio bolso e, muitas vezes, perdiam boa parte de seu investimento até que conseguissem emplacar um nome. Mas, ainda assim, eles saiam ganhando – pela arte e nas finanças. Interessante saber como eram suas negociações.

Outro assunto que aparece em Séraphine, ainda que de forma bastante secundária, era o do preconceito/perseguição contra homossexuais naquela época. Uhde se muda para o interior da França, no início do filme, certamente para fugir de perseguições. E mesmo depois da guerra, quando o armistício deveria afetar várias esferas da sociedade, ele continuava escondendo seus romances – na segunda fase do filme, inclusive, aparece sua relação com o artista Helmut Kolle (Nico Rogner). O personagem de Uhde é interessantíssimo porque, afinal, foi ele quem impulsou talentos como Picasso, Henri Rousseau, Braque e Douanier Rosseau, entre outros. Além da protagonista, os demais atores se saem muito bem em seus papéis. Gostei especialmente de Ulrich Tukur e de Anne Bennent (que interpreta a sua irmã, Anne-Marie Uhde). Um filme perfeito na forma, no conteúdo e, principalmente, na apresentação.

NOTA: 10.”

DOWNLOAD TORRENT + LEGENDA

Elenco:

  • Yolande Moreau … Séraphine Louis, dite Séraphine de Senlis
  • Ulrich Tukur … Wilhelm Uhde
  • Anne Bennent … Anne-Marie Uhde
  • Geneviève Mnich … Mme Duphot
  • Nico Rogner … Helmut Kolle
  • Adélaïde Leroux … Minouche
  • Serge Larivière … Duval
  • Françoise Lebrun … La mère supérieure

Ficha Técnica:

  • Gênero: Drama / Biografia
  • Diretor: Martin Provost
  • Duração: 125 minutos
  • Ano de Lançamento: 2008
  • País de Origem: França / Bélgica
  • Idioma do Áudio: Francês / Alemão
  • IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1048171/

Dados do Arquivo:

  • Qualidade de Vídeo: DVD Full
  • Vídeo Codec: XviD
  • Vídeo Bitrate: 1.201 Kbps
  • Áudio Codec: AC3
  • Áudio Bitrate: 448 kbps CBR 48 KHz
  • Resolução: 640 x 336
  • Aspect Ratio: 1.905
  • Formato de Tela: Widescreen (16×9)
  • Frame Rate: 25.000 FPS
  • Tamanho: 703.0 MiB cd1 e 701.0MiB cd2
  • Legendas: Em anexo (by Le_e_Genda do Legendas.TV
Fonte de Informações

Trailer: