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Quem disse que fotografia estática não tem vida?

O diretor francês Chris Marker provou, em 1962, que é possível contar uma história cinematográfica apenas com imagens únicas, paradas. Revolucionou o conceito narrativo e estético da época, gerando muitos seguidores, como Godard (Alphaville) e Tarkovsky (O Espelho). No Brasil, algo muito semelhante foi feito em 1987, com o belo e nostálgico média-metragem Rio de Memórias, de José Inácio Parente. E eu duvido que também não haja alguma influência deste filme em longas recentes, comoBrilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e A Origem… De oficial, ele originou o roteiro de Os 12 Macacos, do Terry Gilliam.

Mas, antes de ser influência, La Jetée é um exemplo escancarado de uso do que há de mais essencial no cinema: a memória. É através dela que a história é (literalmente) construída. O próprio narrador-protagonista diz, sobre uma lembrança que tem da infância, que já não sabe mais se aquilo realmente existiu ou se foi apenas algo que ele assim gostaria que fosse.

Em forma de fotorromance, a história é contada por um homem que, assombrado por um imagem desde criança, tenta recapitular a própria vida para cientistas alemães que o tomam como cobaia, na tentativa de “reconstruir” e “explorar” a História francesa, nos tempos do pós-Segunda Guerra Mundial. O que vemos é um misto de memória coletiva e memória subjetiva, uma descrição de uma Paris que acabara de sofrer uma hecatombe e um relato emocionado de quem vivera ali uma grande história de amor.

Com o uso de música e utilizando recursos de câmera para dar maior profundidade às fotos, Chris Marker nos faz abdicar da dependência da habitual condução das imagens pelo cineastas, para nos deixar livres para criar a nossa própria história imagética em movimento, tomando como base aqueles fotogramas. E que maravilha de fotogramas!

La Jetée (1962) – legendado em português from fred burle on Vimeo.