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“A Riviera não é aqui” é um filme muito gostoso de assistir que fala do choque cultural de uma maneira bem leve e muito engraçada. O mais interessante é que, nesse filme, “choque cultural” não quer dizer um choque entre culturas de dois países diferentes, como a gente costuma pensar, mas entre modos de viver dentro de um mesmo país. Aqui no Brasil a gente está careca de saber daqueles clichés que atribuímos aos conterrâneos de outros estados. Os paulistas adoraram dizer que os cariocas são folgados, os cariocas adoram dizer que os paulistas são antipáticos, paulistas e cariocas gostam de chamar os baianos de preguiçosos, os mineiros de “quietinhos” e por aí vai…isso quando o bairrismo fica só na piada, por que de uns tempos pra cá “xenofobia” entre os próprios brasileiros parece que virou modinha… Tipo povo do sudeste dizendo que nordestino é “raça inferior” e tem que ser exterminado, por exemplo ( nem vamos comentar o nível de retardo mental do sub-humano que faz uma afirmação desse tipo).

Pois bem, “A riviera não é aqui” fala justamente disso: como dentro de um mesmo país as pessoas podem simplesmente ignorar (ou menosprezar) culturas e modos de viver diferentes.

Phillipe Abrams (interpretado por Kad Merad) é um funcionário dos correios em Salon-de-Provence, no ensolarado sul da França. Casado e com um filho pequeno, a vida de Abrams seria perfeita se não fosse a eterna insatisfação da mulher Julie. Ela quer que Philippe consiga uma transferência para a Riviera francesa e não deixa o pobre coitado em paz. Depois de ter um pedido de transferência recusado em favor de um funcionário cadeirante, Abrams decide se passar por deficiente físico para conseguir uma vaga. A farsa é descoberta e, como “castigo” ele é transferido para a cidade de Bergues, no extremo norte da França perto da fronteira com a Béligica. No sul todos presumem que o norte é frio como a sibéria, que é atrasado, que lá que não tem nada de interessante para fazer, que as pessoas são mal-educadas e bebem demais…assim todos, inclusive o próprio Phillipe imaginam que sua vida trabalhando em Bergues será um inferno. Deixando a mulher o o filho em Salon-de-Provence, Abrams se muda para Bergues (voltando para ficar com a família a cada quinze dias), e qual não é a sua surpresa ao perceber que estava redondamente enganado sobre o Norte. Phillipe faz novos amigos e passa a adorar o trabalho e a nova cidade. No entanto, ainda lhe resta um problema: sua mulher pensa que ele está sofrendo muito e passa a ser muito mais amorosa com ele para compensar o “sacrificio” que está fazendo pela família. Agora que finalmente está feliz no trabalho e no casamento, será que Phillipe terá coragem de dizer a verdade a Julie?

“A Riviera não é aqui” é uma excelente comédia de erros. Os preconceitos de Phillipe sobre o norte fazem com que ele cometa gafes hilárias, e as diferenças de dialeto e modo de viver entre o norte e o sul são combustível para ótimas piadas(especialmente o dialeto do norte, chamado de Ch´ti, pois o som do “s” parece “ch”, enquanto o “ch” soa como “k”). O cast de personagens também é excelente, com destaque para Antoine, o carteiro boa-praça e atrapalhado interpretado pelo ator e comediante Dany Boon. Boon, que é nativo do norte da França, da região Nord-pas-de-Calais(onde se passa o filme), também é o diretor de “A Riviera não é aqui”. Em sua carreira humorística Boon frequentemente faz graça com a percepção que os outros franceses têm de sua região natal, e dirigir esse filme teria sido uma maneira de mostrar o norte de maneira mais simpática. Creio que o fato de Boon ser comediante ajudou a imprir um timing fantástico ao filme. O espectador ri quase o tempo todo, mas cenas mais românticas ou mais calmas pontilham a narrativa tornando o ritmo bem confortável, e a interação entre Merad e Boon é perfeita. A bela funcionária Anabelle, interpretada pela atriz Anne Marvin, também acrescenta um bem-vindo toque de delicadeza e romantismo ao filme e faz um contraste legal com a chatice da esposa de Phillipe, interpretada pela atriz Zoé Félix, ótima no papel de mulherzinha insuportável.

Além de ser divertido o filme também é bonito de ver, pois tanto o sul como o norte são fotografados lindamente, o que permite ao espectador apreciar a beleza de ambas as regiões. Ajuda o fato de a região Nord-pas-de-Calais ser muito bonita, com uma abundância de estruturas medievais e casas num estilo flamengo (dada a proximidade com a Bélgica) que fazem a cidade ter um ar de cidadezinha de conto-fada. Mas eu acho que o maior atrativo de “A Riviera não é aqui” reside justamente no fato de ser um filme que mostra uma França diferente daquela que estamos acostumados a ver nos filmes. Em geral todo filme que tem a França como cenário se passa em Paris ou no Sul (especialmente na Riviera). O que “A Riviera não é aqui” mostra é que existe muito mais para ser visto na França, que existem outros dialetos, outras comidas, outros costumes…enfim outras culturas dentro da cultura francesa (da qual nós temos uma visão ainda muito estereotipada). De fato, depois do lançamento de “A Riviera não é aqui” o número de visitantes da região aumentou consideravelmente…creio que com razão: o filme faz um ótimo trabalho em deixar o espectador morrendo de vontade de conhecer o norte da França .

Fonte: C’est la vie