Tags

, , , , , , , , ,

Uma nova publicidade produzida por um grupo liberal americano mostra Mitt Romney (candidato à presidência) falando francês. Na parte de baixo da tela, as legendas traduzem um discurso bem diferente, mostrando que o homem é um oportunista. Os partidários de George W. Bush acusaram John Kerry de “parecer um francês” durante a campanha de 2004. Mas por quê os americanos detestam tanto os franceses?

Grande parte dessa hostilidade é culpa dos ingleses. Desde os primeiros anos da República francesa, para os americanos, a França representou tudo o que os Estados Unidos não eram e tudo o que eles não queriam ser de jeito nenhum. Alexander Hamilton dizia: “Não existe real semelhança entre o que foi a causa dos Estados Unidos e o que é a causa da França”. (Para ele, a primeira era a liberdade e a segunda, a licença.

Qualquer que seja, pode-se ligar muitos dos preconceitos anti-franceses à alegre Inglaterra, que passou séculos combatendo seu rival do outro lado “de la Manche”. Hoje, quando os americanos fazem referência à França para criticar um político, eles exploram toda uma gama de velhos estereótipos que não são mais válidos e cujos muitos eram injustos desde o princípio. Veja os cinco sentimentos anti-franceses mais marcantes, cada um com um pequeno resumo histórico.

1. Os franceses são afeminados e covardes

Os americanos herdaram esse clichê dos seus ancestrais britânicos. No fim do séxulo XVI, um inglês ridicularizou a língua francesa, caracterizando como “delicada mas decididamente charmosa, como uma mulher ousada com os lábios entreabertos, com medo de estragar sua mina”.

A caricatura ganhou vigor durante a Segunda Guerra mundial, depois que o exército alemão atravessou a ligne Maginot e invadiu Paris em algumas semanas, e teve um “revival” quando Jacques Chirac se opôs à invasão do Iraque em 2003.

Colin Powell acusou o ex-ministro francês dos negócios estrangeiros Hubert Védrine (que condenou a invasão americana ao Iraque) de “ter vapores” e o republicano John McCain declarou “Eles me fazem pensar em uma atriz de cinema dos anos 1940 que é convidada para jantar mas não tem mais os meios necessários para isso”. A ilustração moderna do mais célebre esterótipo vem talvez de Willie, o jardineiro de Os Simpsons, que em um episódio de 1995 qualifica os franceses de “macacos comedores de queijo“.

2. Os franceses são corruptos e não têm idealismo

Pouco depois da independência, a “Affair XYZ“, na qual diplomatas franceses tentaram vender a sua influência para os enviados dos EUA, chocou os americanos. O tempo passou e eles ficaram completamente convencidos da corrupção dos franceses, que eles estavam prestes a acreditar até nos mitos mais extravagantes. Durante a Primeira Guerra mundial, os jornais de Hearst contavam que o governo francês pagava um aluguel aos soldados americanos para deixá-los usar as trincheiras. Voltando para casa, eles se queixavam que os hoteis e os comerciantes franceses tinham lhes enganado. Os participantes da invasão do Iraque em 2003 usaram muito dessa visão das coisas, e argumentaram que Saddam Hussein tinha comprado Chirac com promessas de petróleo.

3. Os franceses são teóricos demais

Uma velha piada circula em Washington, sobre um comitê internacional que parece trabalhar em uma invenção totalmente nova (PDF sobre essa história). Enquanto toda a assistência está impressionada, o representante francês se perturba: “De todas as evidências isso funciona por um ponto de vista prático, mas isso vai funcionar na teoria?”. O clichê do francês cético e numeralista parece vir da Grã-Bretanha. Na sua obra de 1793 “L’exemple de la France, avis à la Grande Bretagne”, o inglês Arthur Young faz homenagem à “aversão constitucional da teoria, de toda confiança nos raciocínios abstratos” dos britânicos. Isso é só uma declaração entre tantas outras, que remontam à metade do século XVII.

4. A França é elitista

A imagem de uma elite dirigente esnobe e sobretudo associada à de Maria Antonieta sugere que os pobres, sem pão, só comiam brioche. Então há essa declaração de Louis XIV: “O Estado sou eu (L’État, c’est moi)”. Hoje, nomes de altos funcionários franceses saem da mesma escola, a Escola Nacional de Administração. Quando os políticos americanos acusant seus opositores de simpatia francesa, é frequentemente uma maneira indireta de lhes acusar de elitismo. John Kerry recusou dar entrevistas em francês depois da campanha de 2004, e George W. Bush também evitou falar a língua de Molière. Assim como os dois homens tinham a reputação de a dominar relativamente bem, eles também tinham medo de serem taxados de elitistas.

5. A França é coletivista e não respeita as liberdades

Existe um notório contraste de mal entendidos entre o ideal americano de “vida, liberdade e consequentemente a felicidade” e “liberdade, igualdade e fraternidade” dos franceses. O projeto francês sempre colocou um forte acento sobre a unidade e sobre uma cultura política, social e econômica coerente. Frequentemente, nos debates políticos, acusar uma proposição de ser francesa é uma maneira de qualificá-la como socialista (o que para um americano é extremamente próximo de um comunismo).

L’explication remercie Justin Vaïsse de Brookings.

Brian Palmer

Fonte: Slate.fr